Poucas vezes temos a oportunidade de pensar a cidade enquanto instituição social, enquanto espaço que recebe, abriga e provoca o encontro das pessoas e o seu conhecimento. A cidade é o espaço de identificação e de integração. (Ou pelo menos deveria ser.) Em alguns momentos, porém, ela é agredida, como também seus cidadãos, pela ausência de planejamento urbano e arquitetônico, e pela especulação imobiliária que supera, através da destruição e da poluição visual, qualquer limite para conservação ou preservação de áreas, gerando o chamado "caos urbano".
Como pensar, nesse contexto, a questão estética? É plausível? Pode o cidadão fruir esteticamente o seu ambiente mais próximo?
O trabalho de Ana Ruas responde afirmativamente essas questões. Desde 1998, Campo Grande/MS conta com 25 murais criados pela artista, em pontos diversos da cidade: viadutos, muros de escolas e residenciais, edifícios, passarelas, entre outros. São murais didáticos se pensarmos em sua função de educar visualmente o homem para a harmonia da paisagem, considerada como conjunto de elementos humanos, naturais e culturais. O caráter monumental das obras contrasta com a limpeza das cores e dos desenhos, impedindo que essas superfícies recebam outras informações ou interferências ruidosas como pichações e cartazes.
A artista opera sobre cores contrastantes que atingem seu melhor momento na utilização das sombras, provocando o 'trompe l'oeil", isto é, durante alguns instantes, ao menos, pensamos que as sombras são verdadeiras. Este recurso permite que o jogo do olhar se intensifique, na medida em que Ana Ruas passa a brincar com o espectador através das sombras invertidas Assim, imagem, luz/sombra e movimento são seus recursos construtivos.
A arte de Ana Ruas provoca a limpeza visual da cidade, corrigindo o avanço desordenado de seu traçado, construindo um novo cenário urbano agradável e necessário.
Do mesmo modo o projeto A COR DAS RUAS, além desse caráter educativo, atua como elemento de integração, envolvendo adolescentes da comunidade dos bairros escolhidos para execução dos murais. A fruição estética do ambiente, passiva ou ativa, certamente faz com que o individuo e o grupo social se reconheçam e se integrem na conservação do bem comum, o seu bairro.
Maria Adélia Menegazzo / Crítica de Arte - ABCA
Catálogo A Cor das Ruas / 2001