Ana Ruas integra uma corrente de artistas que compartilham de uma visão socializante da arte. Acreditam que o artista deve ser um agente modificador da sociedade, não só por sua obra individual, mas também por suas ações e interferência nos grupos passiveis de seus benefícios enriquecedores. Como artista que divide o trabalho como animador cultural, integro-me nessa corrente que felizmente sempre tem seus adeptos em cada geração, especialmente no século XX, quando grandes tend6encias da arte, enquanto educação, se investem de teorias não só estéticas, mas sociológicas também. Dentro dessa visão inteligente, com a inquietude de uma artista jovem, não corrompida pelo mercado, cheia de vontade de doar-se à cidade e às pessoas,é que Ana Ruas se revela nos caminhos das avenidas, embelezando Campo Grande com suas pinturas. Sem dúvida ela fez crescer através de suas interferências e caráter receptivo às transformações em nossa urbis que, no passado, me pareceu tantas vezes um set cinematográfico recortado em papelão.
Hoje esse velho cenário está retocado na força explosiva e contagiante do trabalho e resultado do trabalho de Ana, na beleza e reformulação do olhar que se acomodara ao progresso da nossa cidade que, aliás, pouco cresceu em esplendor arquitetônico. Hoje, é o conceito e não mais o progresso que chega pelas linha férrea. Os emigrantes continuam bem-vindos nesta terra de caminhos encruzilhados. Ana ruas, em dúvida, compartilha conosco sua visão de civilidade e com suas ações pictóricas educa nossos jovens, tenta interceptar as pichações metropolitanas e a vadiagem com propostas de beleza, cor e fazer. Assim, desde 2001 quando o projeto A COR DAS RUAS foi idealizado, 720 adolescentes foram envolvidos. Além de 53 bairros de Campo Grande, mais cinco cidades do interior do estado foram incluídos. A COR DAS RUAS, um projeto de raro bom sucedimento, finalmente ao alcance de todos, trabalhando pela mão e pelo olhar de anônimos adolescentes. Abordar este projeto, sua função cultural e social, é abordar a energia criadora da arte recanalizada em jovens que não se sabiam capazes de instrumentar suas próprias energias, estagnadas pelo abandono social. Energias capazes de redescobrir e alimentar a auto-estima. A descoberta de si mesmos, a surpresa com o que são capazes de render. Eis, aí o mérito deste projeto: a resposta imediata da comunidade, o transeunte, o trabalhador, o desempregado, o casal de namorados, o pipoqueiro, a babá, o pai do aluno, todos gostam do belo. Sem dúvida, uma oportunidade para o convívio do povo com a arte, uma relação de empatia. Ana não trabalhou só com a plástica, mas com o fazer. A plástica se revela na surpresa do resultado, na expressão dos rostos dos participantes, na alma coletiva de cada bairro transportada para os muros, como um lenitivo, através da avidez de mãos adolescentes.
Humberto Espíndola - 2002
Artista Plástico / Campo Grande/MS